Doces Pessoas

Doces Pessoas

A preocupação com as taxas de açúcar no sangue é uma rotina cada vez mais frequente entre as pessoas. O Diabetes têm se alastrado, atingindo hoje mais de 200 milhões de pessoas, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Este controle é rotina na vida da nutricionista Bruna D. A. Rauen Cerqueira, após descobrir que era Diabética (tipo 1), com apenas 11 anos de idade. Nestes anos, passou por lutas, adaptações, aprendizados e alegrias, aprendendo a conviver com a doença.

O HNSG na minha vida

Descobri que tinha diabetes aos 11 anos de idade. Era início de uma outra etapa da minha vida, cheia de novas realidades e situações que eu precisaria me adaptar. O diabetes chegou silencioso. Eu passei a sentir mais sede, fome e vontade de ir ao banheiro, pois minha bexiga estava sempre cheia. Nem eu nem meus pais conhecíamos os sintomas do diabetes, mas como tenho um tio médico, ele começou a prestar atenção em mim nas festas de família e percebeu que tinha algo estranho. Ele comentou com meus pais e sugeriu que eu fizesse os exames. E, ele estava certo, fui diagnosticada com Diabetes.

No começo foi muito difícil, afinal, eu era uma criança que tinha acabado de descobrir que nunca mais ia comer um doce, que o açúcar, algo tão bom, fazia mal pra mim. Eu ia para o colégio e sempre tinha que comer uma fruta ou um salgado, mas doce, como as outras crianças, de jeito nenhum. Foi complicado aceitar no início, cheguei a comer alguns doces escondida, mas com o tempo, com ajuda de meu médico e família fui compreendendo e, embora sendo criança, sabia que aquilo era para o meu próprio bem. De uma maneira ou de outra eu teria que conviver com isso para o resto da vida, então, melhor aceitar por bem do que por mal.

Logo no início eu não precisava de insulina, mas um tempo tive que começar com as aplicações diárias. As minhas primeiras injeções, quem me aplicava era um farmacêutico que trabalhava perto da minha casa. Todo dia de manhã, antes de eu ir para o colégio ele ia lá em casa e me aplicava. Eu não tinha medo, afinal a agulha é bem pequena e fina, não dói, mas mesmo assim eu não olhava ele aplicando. Aos poucos meus pais foram aprendendo a aplicar. Eles foram verdadeiros alicerces, sempre prontos, preocupados me amparando por todos os lados. Os anos foram passando e fui crescendo, tendo que aprender a me cuidar sozinha. O fator que me incentivou, foi a viagem de oitava série que se aproximava. Eu teria que aprender a aplicar sozinha, pois queria viajar com a turma em comemoração a nossa formatura e lá não ia ter ninguém para me dar insulina. Eu consegui, passei a cuidar de mim cada vez mais.

Quem tem diabetes precisa fazer exercícios físicos para ajudar no controle, o meu era dançar. Sempre fiz sapateado e o diabetes nunca me impediu de seguir em frente. Claro que é preciso ter um bom controle, sempre que ia para a aula eu fazia um exame de sangue para saber quanto estava a minha glicemia. Uma vez ou outra eu precisava parar um pouco pra comer alguma coisa porque a glicemia abaixava muito. E nas apresentações eu sempre fazia um exame antes de dançar e um logo após terminar. Como o esforço físico é muito grande, se eu começava a me apresentar com a glicemia alta, quando eu terminava já estava quase com hipoglicemia. Por isso, eu sempre ando com alguma coisa que faça minha glicemia subir rápido, de preferência líquido como achocolatado, iogurte, refrigerante.

Hoje em dia o tratamento do diabetes evoluiu muito e tem muitas opções. Antes era bem mais difícil manter controlado o açúcar no sangue e por causa disso tive inclusive algumas crises de convulsão devido a falta de açúcar no sangue. Atualmente é possível ter um controle total da doença. E, o governo ajuda muito, fornecendo todos os insumos que uma pessoa com diabetes precisa. O meu tratamento já me permite comer doces de vez em quando. E, também, um maior controle das taxas de açúcar me auxiliando a evitar crises de hipoglicemia. Já fazem uns 5 anos que eu voltei a comer doce. Mas antes disso, não comia de jeito nenhum, só em casos de hipoglicemia.

Sempre quis saber tudo sobre diabetes. Já participei de muitos congressos, palestras, já li muito sobre o assunto. Resolvi ser nutricionista para poder me conhecer melhor, saber melhor o que eu podia comer e quais os tipo de comida que interferem mais e menos na glicemia e também para poder ajudar outros diabéticos.

Já estou com 28 anos e convivo muito bem com o diabetes, na verdade, eu sempre convivi bem com ela. Sempre me considerei uma pessoa normal e sempre fiz coisas de pessoa normal. A única diferença é que eu preciso me controlar e me cuidar mais do que os outros. Nunca deixei de estudar, brincar, dançar. Sou casada, já saltei de pára-quedas, faço mergulho, quero engravidar ano que vem. Mas também, eu não conseguiria isso sem a ajuda dos meus pais, dos meus amigos, do meu marido, do meu médico e de todos que estão à minha volta. Sempre que começo uma atividade nova, tipo ir para o curso de inglês ou para a academia, eu sempre aviso os professores que eu tenho diabete. Isso é muito importante, se você passa mal, tem alguém sabendo da sua condição para poder te ajudar.

Sei que um dia a cura vai chegar, e quando ela vier quero estar preparada para poder aceitá-la, por isso sempre controlo bem a minha glicemia. Não adianta a cura chegar pra mim, se eu estiver com a diabete descompensada, já com problemas causados por ela.

Se eu fizer um balanço da minha vida hoje, no convívio com o diabetes, posso dizer que ela mudou completamente. Após descobrir a doença, me tornei muito mais responsável e disciplinada, afinal, disciplina é essencial para o bom controle da doença. Aprendi a me cuidar, a prestar atenção em mim mesma, coisas que uma criança de 11 anos geralmente não faz. Tive que mudar minha rotina, aprender a me alimentar corretamente, fazer exames e aplicações de insulina diariamente. Aprendi a valorizar as pessoas que estão à minha volta, afinal elas foram imprescindíveis para que eu pudesse aceitar a doença e conviver numa boa com ela. Tive momentos de fraqueza, mas na verdade, sempre que olho pra trás eu vejo uma criança/adolescente feliz, que nunca deixou de fazer nada por causa da doença, que nunca deixou de ter amigos, aliás, o diabetes me ajudou a fortalecer laços de amizades que carrego comigo até hoje, afinal, no colégio quando eu não estava muito bem, minhas amigas que cuidavam de mim, sempre se preocupavam comigo e faziam de tudo para que eu sempre estivesse feliz.

Minha Mensagem

Quando descobrimos que temos diabetes, no primeiro impacto surge dentro da gente um sentimento grande de tristeza. Então o meu primeiro conselho nesse momento é ter paciência, pois com o tempo você vai aprendendo mais sobre a doença e sobre si mesmo e percebe que não é nenhum bicho de sete cabeças. Percebe que pode ter uma vida completamente normal e muito alegre.

O meu segundo conselho é nunca sentir vergonha de ter diabetes e sempre contar para todo mundo a sua situação: professores, amigos, parentes, conhecidos, afinal eles precisam ter conhecimento da doença para poder ajudar se um dia precisar.
Outro conselho, talvez até o mais importante, é se cuidar sempre! Sempre seguir a risca o que o médico e nutricionista prescrevem, fazer exercício, ter boa alimentação. É dessa maneira que você vai conseguir ter uma vida normal, sem as complicações que o diabetes pode trazer. Se respeitar a doença, a doença te respeita.

 


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